Pré-Natal
Por Cássio Corrêa
Basta ter um lápis
e já buscarão construir estojos
policiar os cantos da cabeça em que os olhos não veem
contratar callcenters para o coração dar as opções do que sente
Esses homens de bem
acham melhor cada um levar seu pão e colocar etiquetas de patrimônio
do que esses anacro-comunismos de dividir
Mas não são eles que levam seus bebês para a praça
brincar nos escorregadores, correr atrás dos sacos de plástico
que voam dos buracos de ar do metrô
Crianças futuras jogadoras do Brasil cheio de gente diferente
um ataque de neto de chinesa e filho de senegalesa e boliviana
o goleiro naturalizado que veio do Haiti e mais dois corintianos de sempre
dormindo em seus carrinhos gorduchos,
amarrados nas costas das suas mães, ouvindo o coração delas se misturar ao regaton
das baterias de teclado gospel da santa ifigência em aulis, cada mulher lutadora
dessas fronteiras defendendo a cidadela das famílias pobres
limpando a casa bárbara das montanhas da pirâmide social
santa ifigênia da etiópia fritando linguiça na noite engordurada das américas
controlando a natalidade do mal estatal que sangra bancariamente
o sexto dia engolindo de uma vez o que o quinto dia assalariou
dizendo eu enterro meus mortos, os que você mata e os que o tempo leva
mas quem traz a vida somos nós, e a fila de gestantes no pré-natal ri
e sentem a dor nas costas de quem carrega universos por nascer
Cássio Corrêa é autor de: No meu tempo era tudo anacrônico (Urutau), Suas canções parecem poemas, Síndrome do desfiladeiro, O dia que você virou praça, Tudo que você consegue pegar.



